Padrões de Beleza x Estética


Antes de abordar os padrões de beleza, é preciso ter uma compreensão sobre os conceitos de beleza. 

Segundo o livro “História da Beleza”, do escritor, filósofo, crítico literário e semiólogo Umberto Eco, o conceito de beleza não tem valor absoluto, podendo sofrer variáveis, em razão das diferenças, históricas, culturais e regionais. A preocupação com a boa forma e beleza acompanha a humanidade desde os primórdios. E em cada época houve um estereótipo aceitável de boa forma e beleza. O termo beleza expressa a qualidade do que é belo ou agradável. Geralmente, é usado para designar as características boas de alguém ou de alguma coisa. 

O conceito de beleza sofre influências externas que podem ser conscientes ou inconscientes, impostas sobre aquele que conceitua a beleza. Claro que ao interagir, vivendo dentro de uma determinada sociedade, convivendo com vários tipos de instituições, todos sofremos algum tipo de influência em vários níveis. 

Mas quais são os objetivos de se criar padrões de beleza? Quem são os criadores? E quais são os padrões de beleza vigentes? 

“A Beleza da Mídia” é a beleza padronizada na cultura contemporânea ocidental e sociedade de consumo atual. As mídias, por intermédio dos seus diversos canais, programas de televisão, redes sociais, revistas e websites, inserem na sociedade conceitos de beleza. Os belos corpos são expostos nas revistas, nos outdoors ou na TV, mas paradoxalmente algumas vezes são inexistentes, uma vez que são retocados e alterados pelos softwares de edição de imagens. O conceito de beleza apresentado quase sempre se apresenta revestido da falsa ideia de que o belo carrega em si o valor da felicidade. Isso ocorre porque o objetivo dessas mídias é aumentar o número de vendas de determinados produtos. E, em alguns casos, o produto em questão é o próprio corpo, que é levado a se submeter a todas as espécies de sacrifícios (dietas torturantes, procedimentos estéticos sofridos). 

Mas será que os donos desses corpos conseguem se sentir realmente satisfeitos? Ou será que, rapidamente, esta satisfação desaparece ao surgirem novas demandas em nome da perfeição e da beleza? É notado através de estudos e pesquisas que, ao invés de atingir a perfeição e a aspirada felicidade, as pessoas estão se percebendo cada vez mais distantes dos seus ideais de beleza, precisando de mais e infindáveis retoques. 

Diante da mídia invasiva que desfila corpos padronizados e ditos como belos, as pessoas tornam-se culpadas e se responsabilizam pela sua incompetência em ascender à condição do objeto do desejo, o corpo ideal, que se torna cada vez mais distante e inacessível. Então elas se sentem irremediavelmente distantes dos padrões de beleza vigentes. 

Corpo é sinônimo atualmente de aparência física e essa aparência tende a ser objeto de consumo que gera mais consumo. A sociedade busca um ideal de prazer que nunca se sacia e que mantém as pessoas permanentemente insatisfeitas e suscetíveis às novidades do mercado, que renovam a promessa de prazer absoluto. Insatisfação crônica e prazer são produto e promessa respectivamente, da mesma cultura. 

Corpo e sexo na atualidade são bens de consumo, deslocam-se do privado para o espaço público. Diante desta falta de privacidade e da impossibilidade de ter uma vida verdadeiramente prazerosa, surgem angústia e ansiedade. Investir no corpo torna-se uma busca de reequilíbrio. 

Por trás da construção dos padrões de boa forma e beleza esconde-se também uma ideologia política, elitista e social. Por trás da ideia de corpo alojam-se vários outros ideais de comportamento, de valores. O conceito de beleza não pode deixar de ser associado com o poder financeiro e cultural que o indivíduo ocupa na esfera pública. Esse desejo de beleza ideal, em razão da vaidade excessiva gera uma serie de distúrbios, pois o fator de diferenciação leva à exclusão social. A estética corporal serve como divisor social, na medida em que exclui os que não estão de acordo com os arquétipos difundidos principalmente pelos meios de comunicação de massa. 

Rugas, flacidez muscular e queda de cabelos que acompanham o amadurecimento devem ser combatidas com manutenção corporal e ajuda de cosméticos e de recursos disponíveis pela indústria da beleza. O sujeito, na impossibilidade de ser eterno, se satisfaz em manter sua aparência jovial e esconde de si e dos outros que está envelhecendo. O corpo aqui não é pensado de modo complexo, de forma holística, de maneira multidisciplinar. 

A sociedade contemporânea assiste deslumbrada à passagem dos "corpos perfeitos", que invadem progressivamente todos os espaços da vida moderna. Mas há uma linha muito tênue que separa o cuidado saudável do corpo, de uma posição compulsiva com a estética. A expectativa de corpo das pessoas em relação a esses padrões de beleza é o que provavelmente interliga uma variedade de fenômenos cada vez mais comuns, como a maior incidência de bulimia e anorexia, depressão, busca desenfreada por cirurgias plásticas estéticas, se transformando em palco de diversas discussões e intolerâncias. Esses conflitos têm em seu cerne a falta de aceitação do que é diferente do padrão. 

Assim, é necessário ter uma postura consciente e questionadora sobre as informações relacionadas à boa forma e beleza. É importante se questionar qual é a relação que existe entre as imagens dos corpos divulgados pela mídia em uma cultura de consumo, com os ideais de beleza e a ideia de completude e busca da felicidade. Esta felicidade, entretanto, traz um preço, que é ignorar o corpo individual, mortal e rico em experiências, uma vez que no ideal contemporâneo não há lugar para histórias, para amadurecimento e muito menos para a morte. 

Mas o indivíduo não é apenas o que o seu corpo é. Têm também a sua história e o corpo é parte dela. Com o advento tecnológico, a ciência faz com que as pessoas tenham a ilusão de que podem ficar se esquivando da morte ou podem ser eternamente jovens. A morte precisa ser aceita, pois corpos sem morte equivalem a corpos sem vida. 

Como dizia Umberto Eco: “Para além da fugacidade dos padrões de beleza existe o atual inesperado sincretismo do Belo.” É preciso ampliar a visão de mundo, interpretando a si mesmo, as pessoas, as coisas e situações da vida com olhos diversos. 


Referências: 

HERMANN, Nadja. Ética, estética e alteridade. Cultura e alteridade: confluências. Org. de Amarildo Trevisan, Elisete Tomazetti. Ijuí: Ed. Unijuí, 2006. 

MENDES, Jerlyson Coelho et al. CUIDADOS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO DA PELE. Mostra Científica da Farmácia, v. 6, n. 1, 2019. 

PIMENTEL, Déborah. Beleza pura. Estud. psicanal., Belo Horizonte , n. 31, p. 43-49, out. 2008 . Disponível em . acessos em 21 ago. 2019. 

RUSSO, Renata. Imagem corporal: construção através da cultura do belo. Movimento & Percepção, v. 5, n. 6, p. 80-90, 2005. 

SHMIDTT, Alexandra; OLIVEIRA, Claudete; GALLAS, Juliana Cristina. O mercado da beleza e suas consequências. UNIVALI. Santa Catarina, 2008.


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